quinta-feira, 17 de outubro de 2002

Pedro Nunes, um matemático de génio

Texto de Rui Albuquerque

Comemora-se este ano o 5.º centenário do nascimento de Pedro Nunes Salaciensis (1502-1578), o matemático mais prestigiado pelos seus pares europeus que Portugal já conheceu. Recordemos o contexto histórico com uma nota muito particular: está hoje provado que as naus do século XV iam aos novos mundos e voltavam, guiadas pelos poucos mas bons instrumentos dos marinheiros e navegadores portugueses. O progresso social gerado pelas descobertas marítimas e restante desenvolvimento pré-renascentista - Lisboa tornou-se uma das maiores cidades europeias -, possibilitou depois o aparecimento de figuras ilustres como Garcia de Orta (c.1499-1568), Garcia de Resende (1470-1536), Damião de Góis (1502-1574), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Luís de Camões (c.1524-1580) e Pedro Nunes.

Nascido em Alcácer do Sal, Pedro Salaciensis formou-se em Medicina, Línguas e Filosofia pela Universidade de Lisboa. Possivelmente por ter estudado em Salamanca, casou com a castelhana Guiomar de Arias. Em 1530 recebeu a nomeação de cosmógrafo do reino e foi provido nas cadeiras de Filosofia Moral e Lógica na universidade portuguesa. Não conseguindo ouvintes em Filosofia Moral, o mesmo vindo a acontecer a Garcia de Orta que o substituiu, foi incumbido de ler Metafísica. Em 1532 Pedro Nunes deixou a universidade, inegavelmente armado de uma formação completa no mundo da escolástica (1).

Em 1544, o rei D. João III chamou Pedro Nunes para leccionar Matemática em Coimbra e nomeou-o cosmógrafo-mor do reino. Terceiro personagem desta história nascido em 1502, o rei foi um governante virado para as questões do ensino e difusão da cultura mas que haveria de ficar recordado pelo estabelecimento da Santa Inquisição (2) no seio do Estado português. Desde a publicação de De crepusculis liber unus, em 1542, Nunes granjeou a maior admiração internacional. Tornou-se um cosmopolita partilhando as suas investigações e ensinamentos entre Basileia, Coimbra, Lisboa e Salamanca.


A obra


Como geómetra, Pedro Nunes estudou a astronomia náutica a fundo (certo navegador acometia-o com problemas suscitados nas viagens para o Brasil), tendo adicionado à teoria a curva que é hoje designada por «loxodrómica» - a rota que um barco tomaria se cortasse todos os meridianos da superfície da Terra pelo mesmo ângulo - e que ele percebeu ser diferente dos círculos máximos e semelhante a um hélice.

A geometria intrínseca duma qualquer superfície - descrição das cartas ou mapas, mais as suas geodésicas ou caminhos mais curtos - está sempre condicionada pela «curvatura», uma certa e determinada quantidade de que só no século XIX se deu explicação cabal, mas da qual Pedro Nunes parece ter estado ciente no caso da superfície terrestre. Note-se que de modo nenhum a «planificação da esfera», a cartografia, se torna um exercício trivial.

Bom investigador físico-matemático, Pedro Nunes lá deve ter compreendido como Marx e Lénine que a prática é o critério da verdade. Preocupado com o rigor das suas teorias, inventou um instrumento de medição dos ângulos, baptizado de «Nónio» em seguimento do apelido latinizado do seu autor. Em concepção, o Nónio consegue medir os ângulos até várias casas decimais por meio de um desdobramento consecutivo das escalas.

Consta, por se ter ouvido dizer, que Pedro Nunes construiu mesmo as suas «máquinas de precisão» em Coimbra. Porém não está demonstrada a existência de algum Nónio alguma vez em Portugal. Certo mesmo é que não era fácil produzir tais instrumentos com precisão. Tendo o nosso matemático resolvido as questões da duração dos crepúsculos matutino e vespertino, bem como encontrado o dia em que eles são menores, para um local da Terra e uma posição do Sol dados, não é de excluir que tivesse querido confrontar as suas «fórmulas» com a realidade. Confirmados pela prática e por meio do Cálculo Diferencial, séculos mais tarde, os acertados teoremas de Nunes teriam bastado para o levar à imortalidade na história da Ciência.

Nunes publicou imensas obras. Algumas viradas para as questões da marinha - domínio em que veio a ser atacado sem razão por ser apenas um teórico. Em 1537 publicou Sobre certas dúvidas da navegaçam e Tratado da defensam da arte de marear. Se as outras obras iniciais são traduções para português, com anotações, dos tratados de ciência da Idade Média, incluindo uma tradução comentada de parte do célebre Almagesto de Ptolomeu (c.90-c.168, o grande astrónomo geocentrista, que trabalhou na biblioteca de Alexandria), as que se seguiram, não mais escritas em português, fizeram escola pela Europa fora. Por exemplo, Tycho Brahe (astrónomo dinamarquês, mestre de Nicolau Copérnico), Simon Stevin (engenheiro dos diques holandeses), Clavius (matemático alemão dito o Euclides do século XVI) e outros estudaram com muito respeito os escritos de Pedro Nunes. Nomeadamente os originais De crepusculis liber unus (Lisboa, 1542), De erratis Orentii Finaei (Coimbra, 1546, uma revisão dos trabalhos de Oronce Finé, professor do Collège Royal, hoje Collège de France, que pretendia ter resolvido os três problemas já então famosos da quadratura do círculo, duplicação do cubo e trissecção do ângulo), Petri Nonii Salaciensis opera (Basileia, 1566), De arte atque ratione navigandi libri duo (Coimbra, 1573, reedição da obra anterior com novos desenvolvimentos) e o Libro de algebra en arithmetica y geometria (Antuérpia, 1567, um grande tratado de álgebra, infelizmente escrito num estilo já então datado que logo viria a ficar ultrapassado).

Nunes foi-se desligando da escolástica conquanto mais se dedicava às ciências exactas. Assim, as razões que o levaram a não afirmar adesão à teoria heliocêntrica não podem ser analisadas com ligeireza ou explicadas por simples posicionamento ideológico. A sua Petri Nonii Salaciensis opera mostra que ele estudou essa obra revolucionária que foi De revolutionibus, do célebre astrónomo polaco Nicolau Copérnico, publicada em 1543 em Nuremberga. Com efeito Pedro Nunes encontrou, nesse livro, erros matemáticos em certas proposições da trigonometria esférica que podem muito bem ter alertado a sua «dúvida metódica». Todavia, foi um dos primeiros homens de ciência a comentar aquelas novas teorias.


A Ciência merece respeito


A história de Pedro Nunes começa e acaba em Alcácer. Primeiro «do Sal», no fim «Quibir». Morreu no mesmo ano da derrota de D. Sebastião e dois anos antes da perda da soberania portuguesa para a coroa espanhola.

Enquanto a primeira metade de Quinhentos está ligada a fortes desenvolvimentos sociais gerados por diversos factores, a segunda é o voltar ao metafísico, à perseguição das ideias, à capitulação política da nobreza reinante, e o começo do atraso científico, tecnológico e logo económico que se vai acentuar, até à época do Marquês de Pombal, em relação à Europa do Norte.

É deveras intrigante o paralelo que se pode estabelecer entre aqueles períodos e o progresso gerado pós 25 de Abril de 1974 e eminente ascensão das forças comprovadamente mais retrógradas (patronato e igreja) à totalidade dos domínios do poder no nosso país. Neste sentido, é novamente de reafirmar a importância - crescente - do Partido Comunista Português na luta pelas causas da ciência, da cultura, da liberdade e da justiça.


(1) Método de especulação teológico que ajuda à penetração racional das «verdades reveladas» nas várias ciências.

(2) Organismo trazido do Vaticano para a Igreja Portuguesa, constituído por «padres-pides», tinha o objectivo de reprimir os que difundiam ideias «heréticas», como o Protestantismo, e de pugnar pelo apuramento da «raça cristã» (repressão de mouros, moçárabes, judeus). Só formalmente desaparecido no século XIX, contribuiu em muito para o atraso científico, social e económico do País. Entre outros, levou á morte prematura de Damião de Góis.

in «Avante!» Nº 1507 - 17.Outubro.2002

domingo, 1 de setembro de 2002

Festa do Avante! 2002


O Pavilhão Central, no espaço central, é como sempre o lugar privilegiado para a realização de iniciativas político-culturais. É aqui que se realizam as mais significativas exposições, para além de ser palco da Bienal de Artes Plásticas, que contempla diferentes modalidades, técnicas e expressões estéticas das artes plásticas.

Mas nem só as artes estão patentes na Festa, a Ciência não é esquecida, e os organizadores procuram sempre conceber um espaço interactivo que pretende despertar a curiosidade para a exploração científica de vários fenómenos de luz e de comportamento de materiais.





Exposição de Ciência e Tecnologia
Água: recurso vital e finito!
Em 2002, a Festa do «Avante!» considera importante apresentar no espaço dedicado à Ciência e Tecnologia, o tema “Água”.

Este espaço tem como objectivo informar e consciencializar os visitantes para a importância de preservar e poupar a água – recurso natural finito e essencial à vida.

Num mundo cada vez mais necessitado deste líquido precioso, as reservas de água adquirem um valor estratégico incalculável – por exemplo, cerca de 40% da população mundial vive em bacias fluviais partilhadas por dois países ou mais – na Península Ibérica,
disputa-se o Tejo, o Douro e o Guadiana.

Nos países mais desenvolvidos o consumo de água tem vindo a aumentar drasticamente. Nos países em vias de desenvolvimento, mais de 80% das doenças são devidas principalmente a água contaminada; a qualidade é alterada pelas mais diversas formas de poluição.

A água, essencial à vida, constitui um importante recurso da actividade humana: a civilização desenvolveu-se sempre junto das margens dos rios.

Numa sociedade essencialmente tecnológica, geradora do progresso e bem-estar, é fundamental que, se tome consciência do outro lado deste progresso: gastos excessivos de energia e produção de um volume preocupante de resíduos poluentes.


É PRECISO PRESERVAR
OS ECOSSISTEMAS
E SALVAR A VIDA NA TERRA!


Uma democracia avançada!

Uma política cultural que assegure o acesso à livre circulação e fruição culturais.

O desenvolvimento económico ao serviço do povo e do país!

Pelo terceiro ano consecutivo, a Festa do Avante! conta com um espaço próprio dedicado à Ciência e Tecnologia.

A cultura científica é aqui encarada como parte integrante da cultura, indissociável do conceito de Liberdade, como defendia Bento de Jesus Caraça.

A ciência não é neutra. Como avisava Einstein, é necessário assegurar que o seu desenvolvimento, a cada momento, é em proveito da Humanidade. Ora, num mundo em acelerado processo de transformação e globalização, determinado pelos impulsos da revolução científica e técnica e subordinado aos interesses dos grandes grupos económicos, a difusão do conhecimento e da cultura científica assume uma importância fulcral na compreensão e superação de inúmeros problemas e desafios, que actualmente se colocam à Humanidade.


“(A)... estratégia de desenvolvimento deverá ter como principais vectores:

- o aproveitamento, a mobilização das potencialidades e a gestão adequada dos recursos naturais (... hídricos e energéticos), tendo em conta a especialização, a defesa e melhoria do ambiente, a preservação e recuperação do património natural e dos equilíbrios ecológicos...”

(do programa do PCP)


“A diversificação e a intensificação de formas de controlo e exploração dos recursos naturais do Planeta, características marcantes do actual estágio de evolução do sistema capitalista, comprometendo as possibilidades de um Desenvolvimento Sustentável à escala global.

A submissão dos bens ambientais à lógica do mercado, colocando nas mãos dos detentores do capital o poder da exploração da natureza, assume um extraordinário potencial de exploração e iniquidade, traduzido na expropriação dos meios sociais ambientais dos cidadãos.”

(da Resolução Política do XVI Congresso do PCP)


“A forma de gestão da água como recurso finito, móvel e reutilizável de propriedade comum, como bem de primeira necessidade cujo acesso é um direito natural, reflecte o projecto de desenvolvimento do País e, a forma do exercício da soberania, do direito, da equidade e da democracia.

Indissociável das políticas territorial e ambiental, a política da água como recurso estratégico, constituí, no entender do PCP, muito mais que uma política sectorial, um componente estruturante do desenvolvimento integrado humano, de equilíbrio com o espaço envolvente e da autonomia e da sustentabilidade.”

(do programa eleitoral do PCP para as legislativas 2002)

DEBATES:


Sábado: 15,30

“Natureza e Desenvolvimento: Que Futuro?”

Com: António Abreu, Prof. Rui Namorado Rosa, Pedro Barata, Luísa Apolónia e Prof. Carlos Calado


Sábado: 21,30

“Gestão da água: as Privatizações”
Com: João Bau, Luísa Tovar, Jorge Cordeiro,
João Oliveira, Baptista Alves e Henrique Carreiras


Domingo: 15,30

“Alqueva: que Desenvolvimento?”

Com: Lino de Carvalho, Prof. Fernando Oliveira Baptista, Engº Pedro Serra, entre outros

ANIMAÇÃO:

  • Dramatização sobre o Tema da àgua
    (antecedendo os debates)
  • Poesia
  • Projecções
  • Experiências e jogos

Obs.: a dramatização teatral tem uma duração de 10 a 15 minutos.

TENDA DE ASTRONOMIA
(Junto ao Lago):

  • Divulgação
  • Palestras sobre as Ciências dos Astros
  • O buraco do ozono e o meio ambiente
  • Observações astronómicas

Tenda da Astronomia, perto do lago

Lago

sábado, 1 de setembro de 2001

Festa do Avante! 2001





Ciência

Sábado
16.30 horas -(Pavilhão da Ciência)
"A ciência ao serviço da humanidade?" com a presença do astrónomo Máximo Ferreira, de Francisco Silva, engenheiro e especialista em telecomunicações, e Jorge Dias Deus, responsável pelo departamento de Física do Instituto Superior Técnico de Lisboa

quinta-feira, 9 de agosto de 2001

Entrevista com Máximo Ferreira

O ABC da astronomia

O astrónomo Máximo Ferreira, do Museu da Ciência, fala-nos da sua experiência com os jovens e dos avanços desta ciência nos últimos anos. «A astronomia é aliciante para todas as pessoas e devemos utilizá-la para ensinar outras coisas mais importantes», afirma, lembrando que não há mercado de trabalho para os astrónomos.

«Avante!» – O Museu da Ciência recebe muitos pedidos de escolas para fazer demonstrações, nomeadamente de astronomia. Qual a reacção dos estudantes que participam?

Máximo FerreiraMáximo Ferreira – A reacção normal é de expectativa. A astronomia é vista como uma ciência com muitos encantos e muitos mistérios. As pessoas normalmente pensam que vai chegar alguém que vai explicar como é que isto começou, como é que vai acabar, o que são os buracos negros... A nossa missão é chamar as pessoas à realidade das dúvidas que a ciência tem. A ciência observa alguns fenómenos, estabelece teorias e mantém um permanente convívio com a ignorância, com aquilo que não sabe.

A princípio os jovens sentem uma certa desilusão, porque não lhes passa pela cabeça que os cientistas não saibam tudo. A nossa missão é mostrar-lhes como é razoável não saber tudo... e até como é bom não saber tudo. É um incentivo permanente que se põe a todas as pessoas.

Depois mostramos como é fácil trabalhar e que a compreensão absoluta é difícil mas é possível desde que se trabalhe. Em geral ficam muitas sementes: vão sendo criados muitos grupos de astronomia pelo País, quer nas escolas quer noutras instituições.

– A grande promoção da astronomia em Portugal faz-se com os planetários e, desde 1997, com o programa «Astronomia no Verão». É suficiente?

– Nada é suficiente. De qualquer forma, tem sido bastante positivo. O planetário da Marinha, em Lisboa, principalmente desde 1975 alargou bastante a sua actividade, nomeadamente com a ida às escolas. Isso teve muitos efeitos positivos, porque lançou nas escolas algumas sementes da astronomia, trouxe cada vez mais pessoas ao planetário e criou a necessidade de produzir mais recursos para apoiar a divulgação e o ensino da astronomia.

Depois surgiu o planetário do Museu da Ciência, o do Porto e o de Espinho. Actualmente existem cerca de 20 planetários portáteis, um número significativo. Desses, 12 estão em escolas. O objectivo foi criar um centro de recursos para que, dentro da própria escola, se fizesse algum ensino da astronomia, integrada nos programas curriculares. Nalgumas escolas fez-se uma aplicação dos planetários à História, saber por exemplo como os navegadores se orientavam.

– Existem muito poucas licenciaturas que dêem formação em astronomia. Sendo esta uma área que interessa a tantas pessoas, a oferta educativa está à altura?

– Talvez não esteja suficientemente bem articulada. A ideia que tenho é que os programas curriculares não têm encarado a astronomia como uma disciplina necessariamente autónoma – e aí estou plenamente de acordo.

A astronomia é aliciante para todas as pessoas e devemos utilizá-la para ensinar outras coisas mais importantes. É mais importante adquirir uma formação razoável de matemática ou de geometria. Fazer uma conta para ver quanto é que o telescópio aumenta a visão é uma acção que assusta as pessoas, mas, seu eu tiver um telescópio e quiser trabalhar com ele, tenho de fazer a conta. Se eu fizer com que a pessoa meça a altura de uma estrela, ela vai perceber o que é a altura e que o ângulo que eu meço aqui é o mesmo que eu mediria se pudesse ir à esfera celeste.

– Parece que a astronomia não vale por si mesma...

– Vale, mas, se através da astronomia se fizer com que as pessoas percam o medo de conceitos de física ou de matemática, elas adquirem conhecimento e podem ser qualquer coisa na vida: matemáticos, físicos, biólogos, médicos, economistas, electrónicos... Se a pessoa for encaminhada para ser astrónoma, no final da sua formação não tem emprego.

– Como funciona o mercado de trabalho?

– Pois, o problema é esse. Aparentemente estava a desvalorizar a astronomia, mas não podemos estar a incentivar todas as pessoas a serem astrónomas.

– Há 40 anos, Iuri Gagarine tornou-se o primeiro homem a viajar no espaço, depois de anos de intenso trabalho no campo científico. Avançou-se tanto nestes últimos 40 anos como nos 40 anos que precederam a viagem?

– Talvez me atrevesse a dizer que quando Gagarine foi para o espaço passaram-se mais de 50 anos depois de Tsiolkovsky ter dito que «a Terra é o berço da humanidade mas que ninguém vive no berço toda a vida».

Colocar um homem no espaço é, de facto, um feito histórico. Daí para cá não se terá avançado tanto. O que se ganhou foi muita tecnologia e muita acumulação de conhecimento. Essas primeiras tentativas de colocar naves e homens no espaço foram dando uma maior noção da realidade: que condições são necessárias para ter homens no espaço e para que é preciso ter permanentemente homens no espaço?

Podemos pensar que passaram poucos anos entre o homem no espaço e o homem na lua e se não seria razoável que já tivéssemos chegado mais longe. Penso que o progresso foi extraordinariamente mais importante na percepção de que existem limitações físicas para viajar no espaço, mas que não existem limitações tecnológicas. Podemos conhecer o espaço sem ir lá.

Acho que se progrediu extraordinariamente. Hoje conhecemos muito melhor os planetas do sistema solar do que se tivéssemos insistido na ideia de que «só queremos conhecer Saturno quando for possível ir lá um homem».

– O lançamento de naves é muitas vezes apresentado pelos media como o mais importante na astronomia. Isso corresponde à realidade?

– Os avanços tecnológicos não se traduzem só nisso, mas isso faz falta para os avanços. Por exemplo, se eu quero detectar os primeiros momentos da vida de uma estrela, tenho de detectar a radiação infravermelha que não passa na nossa atmosfera. Para isso tenho de arranjar um sistema mecânico que coloque um satélite no espaço e depois tem de haver um processo electrónico que capte as radiações. A nave utiliza-se hoje como uma ferramenta.


«2001, Odisseia no Espaço» foi realizado em 1968. Hoje a realidade é bastante diferente da apresentada no filme. Na altura supunha-se de facto que a tecnologia iria evoluir tão depressa?

Quem escreve ou faz filmes sobre ficção faz sempre qualquer coisa que não acredita que seja alcançável. A magia da ficção está exactamente nisso. Gostaria de poder viajar no espaço à velocidade da luz, mas com os conhecimentos actuais isso está para lá do possível. Se daqui a 40 ou 50 anos isso se concretizar, alguém dirá que eu tenho um poder de antevisão... Mas não é nada disso.

– O Big Bang, a expansão do universo... Até que ponto se pode provar o que aconteceu há tantos milhares de anos?

– Não se prova. O que fazemos em relação ao Big Bang é o que fazemos com outras coisas. Nesta altura, vemos galáxias que se afastam umas das outras. Então, daqui a uns milhões de anos hão-de estar mais afastadas. Logo, o universo está em expansão. Agora faço o filme ao contrário. Quando ando para trás, tendo noção da escala de expansão do universo, chego a uma altura em que a matéria está bastante concentrada. Pensamos como seria a pressão, a temperatura, estabelecemos conjecturas e dizemos: «Só pode ter acontecido uma coisa: esta situação deve ter provocado uma explosão.»

Com alguns elementos que vamos recolhendo, vamos concluindo que esta é uma boa hipótese: explica aquilo que se observa e vamos encontrando vestígios que dão ideia que a evolução terá ocorrido assim. Mas não é mais do que uma hipótese. Este universo é criação do homem e é com a ciência que o arquitectamos. Esta hipótese não é completa, deixa por explicar o que haveria antes do Big Bang ou quais os limites do universo. Dava jeito que fosse infinito...

– A astronomia e a física estão ligadas à filosofia?

– Claro e até com quase todas as filosofias religiosas. A grande diferença é que o cientista tem dúvidas e o religioso não tem. Quando não se consegue descobrir algo, o cientista fica com esperança de mais tarde se descobrir, enquanto o religioso pensa: «Foi aqui que Deus entrou».

– Qual o papel dos países pequenos nos avanços tecnológicos, particularmente de Portugal?

– O papel é ser pequeno... Depende também do engenho e da capacidade das instituições. Com uma boa formação, os investigadores impõem-se por si mesmos. Há portugueses nalguns projectos internacionais e isso depende das instituições que os formaram cá e do seu próprio carácter.

Os países pequenos não têm muitas condições para investigação interna. Os centros de investigação são cada vez mais sofisticados e mais caros. Uma forma de um país pequeno se agigantar será formar bem pessoas que possam trabalhar em instituições internacionais.

in «Avante!» Nº 1445 - 9.Agosto.2001

2001, odisseia na Atalaia

Exposição de astronomia com observações do céu, experiência, debates e teatro

A exposição de ciência e tecnologia da Festa deste ano é dedicada à astronomia, um projecto desenvolvido em colaboração com o Museu da Ciência e a Associação Aquila. Estarão expostos objectos usados nas naves e os visitantes poderão observar os astros com telescópios, aprender mais sobre astronomia em jogos electrónicos e discutir a ciência num debate com especialistas. Para os mais novos há uma peça de teatro. Mais informações e pormenores sobre o pavilhão da Ciência serão divulgados em próximas edições.

A exposição da astronomia é composta por experiências interactivas e observações do céu diurnas e nocturnas com telescópios. Estarão expostos modelos do Sputnik e do programa Apolo, comida e pasta de dentes usadas nas naves, autógrafos de astronautas e outros objectos relacionados com esta ciência pertencentes ao Museu da Ciência e à colecção particular de Caeiro de Sousa, um operário que tinha como passatempo a astronomia.

Na tarde de sábado realiza-se um debate, sob o tema «A ciência ao serviço da humanidade?», com a participação do astrónomo Máximo Ferreira, de Francisco Silva, engenheiro e especialista em telecomunicações, e Jorge Dias Deus, responsável pelo departamento de Física do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Será ainda apresentada uma peça infantil pela companhia «Teatro Extremo», de Almada, «Os três cosmonautas». Os actores vão «tirando» histórias de dentro de uma mala à laia dos tradicionais contadores e narrando a história dos descobridores do espaço. «Eles vão enfrentando o desconhecido juntamente com o público. Será utilizada a linguagem oral e corporal e os objectos transportados na tal mala», adianta Anabela Silva, da organização da Festa. O encontro fica marcado para sábado e domingo à tarde, junto à exposição.

Anabela Silva sublinha ainda que esta iniciativa reflecte a importância que o PCP dá à ciência, nomeadamente com a promoção e divulgação do conhecimento científico.

Um local ideal

Para além do astrónomo Máximo Ferreira, à conversa com a jornalista do «Avante!» estiveram Anabela Silva, Vítor Hugo Cardoso e os jovens da Aquila, João Sampainho, Ana Ferreira e Pedro Ferreira

Tudo o que estará presente na Festa já foi apresentadas noutros locais, mas é a primeira vez que se juntam todos estes elementos. Ou seja, esta exposição vai ser estreada pelos visitantes da Festa.

Como explica Máximo Ferreira, a Festa é um local privilegiado para a divulgação da ciência: «Alguns visitantes já terão uma motivação para a astronomia, outros passarão pela exposição só por passar. Mas é isso que nós queremos: que se envolvam com as coisas que lá iremos ter e que isso se traduza numa vontade de continuar. A Festa é um local ideal para fazermos esta exposição, não só pela predisposição das pessoas, como pelo número de visitantes.»

«Não vamos ter todas as coisas que gostaríamos, porque a própria Atalaia não chegaria», diz ao «Avante!» o astrónomo, explicando que é a primeira vez que o Museu da Ciência participa numa iniciativa com tão grande número de pessoas e com formações tão diversas.

As luzes da Festa condicionarão inevitavelmente as observações, mas, como refere Máximo Ferreira, o objectivo da exposição é «mostrar ao cidadão comum que, mesmo no local onde está, há coisas no céu que pode ver. E falaremos também daquilo que não é visível naquela zona do céu.»

Águias do espaço

A exposição conta com a colaboração da Aquila. Parte dos monitores presentes na Atalaia são membros desta associação de observação astronómica fundada no ano passado, no Seixal. Muitos deles são já licenciados, tendo descoberto a astronomia ainda na infância e mantendo-a como um hobby.

Para João Sampainho, o seu presidente, «o contacto com as pessoas é extraordinário». «Além de estarmos ao pé de um telescópio a tentar ensinar alguma coisa, também vamos aprendendo. Por exemplo, no Norte do País atribuem um nome a uma determinada constelação e no Sul dão-lhe outro nome.»

Antes da Festa, a Aquila vai promover diversas observações no concelho do Seixal, aos fins-de-semana. E contam seduzir muita gente...

in «Avante!» Nº 1445 - 9.Agosto.2001

sexta-feira, 1 de setembro de 2000

Festa do Avante! 2000


No Pavilhão Central irá haver uma Exposição da Ciência com o objectivo de divulgar e atrair pessoas para a investigação.

quarta-feira, 8 de setembro de 1999

Os mistérios da ciência desvendados a brincar

O Espaço Interactivo de Ciência apresentado pela Organização de Coimbra do PCP, além de uma novidade, foi um dos grandes sucessos da Festa: instalado perto de uma das entradas do recinto, o Espaço nunca teve espaços mortos na recepção dos muitos milhares de visitantes que, em filas de espera permanentes, aguardavam alegremente a sua vez de experimentar o prodígio de brincar através experiências científicas.

Encestar uma bola usando apenas uma corrente de ar fornecida por uma mangueira, adivinhar texturas, formas e materiais tacteando num recipiente inspirado nos mistérios das cerimónias da ordália, descobrir a escala de solfejo em gigantescos tubos de ar, lançar objectos num declive que recuam em vez de descer devido ao centro de gravidade, experimentar bizarras distorções de óptica em jogos de espelhos, descobrir o princípio do periscópio manuseando exemplares feitos de simples espelhos e cartolina, deliciar-se com as bizarrias provocadas pela electricidade estática, espreitar ao microscópio reacções e formas insólitas, abordar as surpresas da química com manuseamentos simples e directos, eram apenas algumas das surpresas que esperavam (e apaixonavam) os visitantes do Espaço Interactivo da Ciência.

Embora os mais jovens, com a sua alacridade e entusiasmo inesgotável, se afirmassem activamente como os utentes soberanos deste Espaço, os mais velhos - digamos mesmo os de «todas as outras idades» - também não hesitavam em envolver-se nas brincadeiras, agora experimentando, depois olhando atentamente as explicações científicas dos fenómenos que acabavam de desencadear e, finalmente, repetindo a «dose» de brilho nos olhos.

A iniciativa trazida pela Organização Regional de Coimbra fazia bem jus às palavras de Bento de Jesus Caraça, retiradas da obra Conceitos Fundamentais de Matemática e expostas à entrada do pavilhão: «A ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, (...). Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente(...). A ciência encarada assim, parece-nos como um organismo vivo, impregnado de condição humana, com as suas fraquezas e subordinado às grandes necessidades do homem na sua luta pelo entendimento e pela libertação; aparece-nos, enfim, como um grande capítulo da vida humana social».

O Espaço Interactivo de Ciência apresentado na Festa do Avante! é apenas um segmento da grande exposição do Exploratório Infante D. Henrique / Centro de Ciência Viva de Coimbra, situada na cidade do Mondego, apoiada essencialmente pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e tendo a a colaboração de diversas outras entidades locais e regionais, como a Câmara Municipal de Coimbra, a Reitoria da Universidade e outras entidades académicas de Coimbra. Este segmento trazido à Festa do Avante! é um dos módulos itinerantes que o Exploratório Infante D. Henrique utiliza para divulgar no exterior o seu excelente trabalho do ensino da ciência através da experimentação lúdica.


in «Avante!» Nº 1345 - 9.Setembro.1999

quarta-feira, 1 de setembro de 1999

Festa do Avante! 1999


Ciência interactiva no Espaço de Coimbra
Ver, tocar e experimentar


Com o objectivo de contribuir para a divulgação da ciência e da tecnologia, a Organização Regional de Coimbra (DORC) leva este ano à Festa um Espaço Interactivo de Ciência.

Bento de Jesus Caraça, na sua obra «Conceitos Fundamentais de Matemática» escrevia: «A ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada (...) ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente(...).

«A ciência encarada assim, parece-nos como um organismo vivo, impregnado de condição humana, com as sua fraquezas e subordinado às grandes necessidades do homem na sua luta pelo entendimento e pela libertação; aparece-nos enfim como um grande capitulo da vida humana social».

É neste espírito que se insere a iniciativa da DORC ao promover na Festa um espaço interactivo de ciência onde o visitante pode pôr à prova os seus conhecimentos gerais de física e química através de jogos; observar o comportamento inesperado de alguns materiais através do contacto directo; ou experimentar certos fenómenos físicos.

Através de interessantes expositores e com a ajuda das explicações dos monitores, os visitantes poderão verificar o princípio de Pitágoras, o que é um holograma, divertir-se com os espelhos mágicos ou certas reacções químicas, entre muitas outras propostas que atrairão certamente um vasto público de todas as idades.

Para despertar a curiosidade adiantamos o nome de alguns expositores patentes: Bola ao Cesto; Cabeça à Roda; Espelho Mágico; Mão Firme; Minerolândia; Óculos Mágicos; Pulgas Eléctricas; Rampa a Cima, Rampa Abaixo; Tubos de Som; Roda que Roda.

Este original espaço interactivo foi montado com a colaboração do Exploratório de Coimbra Infante D. Henrique e da sua exposição permanente denominada «Materialmente», e conta com experiências de docentes de todas as universidades que têm licenciaturas em Engenharia de Materiais e de docentes do ensino Básico e Secundários de diversas regiões do país.

No final o visitante pode ainda adquirir alguns engenhosos brinquedos miniatura que vão fazer sucesso entre os amigos. Dinossauros e crocodilos que aumentam o seu tamanho depois de mergulhados em água, periscópios e óculos especiais são alguns dos brinquedos que vão estar à venda na banca deste espaço, situado no alto da Medideira.

O horário de funcionamento durante os três dias da Festa é das 11 às 23 horas.

domingo, 15 de agosto de 1999

domingo, 1 de agosto de 1999